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domingo, 31 de outubro de 2010

Libertas Quæ Sera Tamen

“Nem paulistas, nem mineiros: queremos independência!” – A história pouco conhecida dos movimentos separatistas do Sul de Minas.

A iniciativa dos municípios da região sul mineira descrita no post anterior não foi algo impensado, ou sem um respaldo mais amplo. Os primeiros projetos separatistas apresentados à Assembléia Estadual na década de 1840 preconizavam a anexação do Sul de Minas Gerais ao território de São Paulo. Mas o que alguns políticos mineiros pretendiam era a criação de uma nova província na região sul-mineira.
Em sessão da Câmara dos Deputados, a 29 de abril de 1843, o conselheiro Bernardo Jacinto da Veiga discursou pela divisão de Minas Gerais:
“Sou de opinião que a província de Minas deve dividir-se, e se aparecesse nesta casa um projeto compreendendo esse pedaço (comarca do Sapucaí), parte da comarca do Rio Verde, e mais alguma coisa para formar uma província, eu daria o meu voto com muita satisfação.”
Com essa idéia derrotada, por mais de uma década o separatismo sulmineiro ficou relegado à discussões menores.
Com a criação da província do Paraná em 1853, retomaram-se os debates sobre a divisão territorial de Minas Gerais e sobre a transformação da região sul-mineira em província independente. Em 1854, um dos deputados pelo Distrito Neutro, o conselheiro Francisco Octaviano, apresentou à Câmara um Projeto de Lei com as seguintes decisões:
Art. 1º As Comarcas do Sapucaí, Rio Verde e Três Pontas, e o município de Lavras, pertencentes à província de Minas, formarão uma nova província. Tendo por capital provisória o lugar que o governo designe, até definitiva resolução da assembléia provincial respectiva.
Art. 2º Os limites atuais daqueles pontos em relação às outras províncias, depois de verificados administrativamente, serão os limites da nova província (MONITOR SUL-MINEIRO, 13/07/1873).
Mais uma vez o separatismo sulmineiro foi derrotado pelos interesses do governo.
Em 1862, o deputado Dr. Evaristo Ferreira da Veiga apresentou, sem êxito, Projeto de Lei que dividia Minas Gerais em duas partes e criava uma nova província com a denominação de Minas do Sul. Suas disposições eram as seguintes:
Art. 1º Fica elevado à categoria de província, com a denominação de província de Minas do Sul, o território da província de Minas Gerais, compreendido entre as do Rio de Janeiro, São Paulo e Goiás, tendo por limites o rio Turvo até sua confluência no rio Grande; este abaixo até as contravertentes do Rio São Francisco, a alcançar a cordilheira que divide as águas do mesmo rio São Francisco das do rio Paranaíba; e este abaixo desde sua nascente na mesma cordilheira até os limites da província de Goiás.
Art. 2º A nova província terá por capital a cidade da Campanha da Princesa, enquanto a assembléia respectiva não decretar o contrário.
Art. 3º A província de Minas do Sul dará três senadores e dez deputados à assembléia geral; sua assembléia provincial constará de 28 membros. Dos 10 atuais senadores da província de Minas Gerais serão designados por parte, em sessão do senado, depois de sancionada esta lei, os três que serão considerados da província de Minas do Sul.
Art. 4º Os atuais 3º e 4º distritos eleitorais da província de Minas Gerais darão cada uma 2, em vez de 3 deputados e o 7º continuará a dar 2; e a mesma província dará sete senadores e sua assembléia provincial terá 35 membros.
Art. 5º A Província de Minas do Sul fica dividida em dois distritos eleitorais: o 1º compreendendo os municípios da Aiuruoca, Baependi, Cristina, Itajubá, Jaguari, Pouso Alegre, Caldas, Alfenas, Campanha, Três Pontas e Lavras; e o 2º as de Passos, Jacuí, Uberaba, Desemboque, Araxá,  Campo Grande, Prata, Bagagem e Patrocínio; continuando a ser apuradora do 1º distrito a câmara municipal da Campanha da Princeza e será do 2º a do Araxá.
Art. 6º O governo fica autorizado para criar na província de Minas do Sul administração dos correios, tesouraria de fazenda, que será encarregada também da arrecadação e administração das atuais rendas provinciais enquanto a assembléia respectiva não decretar o contrário, e as secretarias de polícia e da presidência, subsistindo a organização desta enquanto a mesma assembléia não alterá-la (MONITOR SUL-MINEIRO, 1873).
Outro Projeto de Lei, apresentado pelo deputado Américo Lobo, a 11 de Julho de 1868, continha as seguintes disposições:
Art. 1º Ficam elevados à categoria de província, com a denominação de província do Sapucaí, o município de Lavras e os que compõem as comarcas de Baependi, Jaguari, Sapucaí e Rio Grande, da província de Minas Gerais, menos o termo de Pium-í.
Art. 2º A cidade da Campanha da Princesa será a capital da província do Sapucaí, enquanto a respectiva assembléia não deliberar o contrário.
Art. 3º A província do Sapucaí dará 2 senadores e 5 deputados à Assembléia Geral; sua Assembléia Provincial comporá de 28 membros. Dos 10 senadores da província de Minas Gerais serão designados por sorte, em sessão do Senado, depois de sancionada a presente lei, os que serão considerados da província do Sapucaí.
Art. 4º Dará 2 deputados à Assembléia Geral o atual 3º distrito da província de Minas Gerais, cuja Assembléia Provincial constará de 45 membros.
Art. 5º A província do Sapucaí fica dividida em dois distritos eleitorais, dos quais o 2º dará dois deputados à Assembléia Geral e doze à Provincial: o governo designará os respectivos colégios eleitorais e câmaras apuradoras.
Art. 6º O governo fica autorizado para criar na província do Sapucaí a administração dos correios, tesouraria da fazenda, que será também encarregada da administração e arrecadação das atuais rendas provinciais, enquanto a respectiva assembléia não decretar o contrário, e as secretarias da polícia e presidência, subsistindo à organização desta, enquanto a mesma assembléia não altera-la. [...] (MONITOR SUL-MINEIRO, 20/07/1873).
Um último projeto separatista foi apresentado à Câmara dos Deputados pelo Dr. Olímpio Valladão, a 8 de julho de 1884. Seu teor e forma não diferiam dos projetos anteriores, sendo que a circunspeção proposta para a nova província limitava-se apenas às comarcas do Sul de Minas Gerais.

sábado, 30 de outubro de 2010

Os Primeiros Anos: Entre a Cruz e a Espada

Capítulo I – Um Cavaleiro Imperial no Paraíso

Manoel Francisco Barbosa Sandoval, Cavaleiro da Imperial Ordem da Rosa

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Condecorado por D. Pedro II aos 2/12/1850

Dizem que a história é composta e contada por fatos, mas o que seriam dos fatos se não fossem os personagens que ocasionam, criam, vivem, os fatos?

Gaspar Vaz da Cunha, José Alves de Lima e Francisco Vieira Carneiro, sem dúvidas, são os pilares sobre os quais se ergueu Paraisópolis (sem, é claro, nos esquecermos daqueles que, ao lado dos referidos, lutaram pelo desbravamento destas terras e pela construção da primeira igreja e da vila), mas ainda nos primeiros anos de existência recebemos como morador um ilustre personagem: Manoel Francisco Barbosa Sandoval, Cavaleiro da Imperial Ordem da Rosa, condecorado pelo próprio Imperador D. Pedro II.

Nascido em São Gonçalo do Sapucaí, MG, em 1790, alista-se no Exército Imperial e, como militar, percorre boa parte da região Sul do País, casando-se em 1809 com Eufrazia Joaquina Rosa e constituindo família. Por volta de 1840 retorna à região sul mineira

Em 1850, aos 2 de Dezembro, foi nomeado, por decreto da mesma data, Cavaleiro da Ordem da Rosa Imperial pelo Imperador D. Pedro II. Do Arquivo Nacional, Rio de Janeiro, Notação Ordens Honoríficas, Ordem da Rosa :

"Hei por bem nomear Cavalleiros da Ordem da Rosa as pessoas mencionadas na relação que com este abaixo assignado pelo Visconde de Montalegre do Meu Conselho de Estado e Ministro e Secretario de Estado dos Negocios do Império.

Palacio do Rio de Janeiro em dois de Dezembro de mil oitocentos e cincoenta, vigésimo nono da Independência e do Império.

P [letra P rebuscada, assinatura do Imperador D. Pedro II]

Visconde de Montalegre

Reg,do a f. 44 do L.o 2ð
de sism.es
2 10.bro 1850 [2 de Dezembro de 1850]

Relação das pessoas nomeadas Cavalleiros da Ordem da Rosa a que se refere o Decreto desta data.

Manoel Francisco Barboza Sandoval --- Minas".

Sua participação na história de Paraisópolis está ligada à um pitoresco episódio: queríamos ser paulistas! Em 1853, ocupando os cargos de Subdelegado, Primeiro Suplente e Juiz de Paz em São José do Paraíso, em 6 de novembro de 1853, é citado numa petição para passar a cidade para a Província de São Paulo. Do livro "Paraisópolis de Ontem e Hoje", de João Lopes de Paiva , 1982.

“Estava assim redigida a petição da Freguesia de São Jose do Paraíso solicitando a anexação do seu território à Província de São Paulo:
’Ilustríssimos Senhores Membros da Assembléia Legislativa Provincial de São Paulo.
Os moradores da Freguesia de São Jose do Paraíso do Município de Pouso Alegre da Província de Minas Gerais abaixo assinados, anelando fruir as vantagens que a solicitude do Governo dessa Província tem proporcionado aos seus habitantes, mui respeitosamente vem procurar a coadjuvação dessa ilustrada Assembléia perante a Augusta Assembléia Legislativa do Império afim de adotar-se a medida que há de realizar os desejos e as vistas dos abaixo assinados.
A posição topográfica, as relações comerciais religiosas e familiares reclamam altamente esta medida.
Distante 25 léguas apenas dessa Capital e mais de 80 da sede do Governo de Minas, pertencendo a São Paulo, os abaixo assinados esperam receber o desenvolvimento que o comércio, a agricultura e a indústria pode trazer o alívio de anti-econômicos e pesados tributos, a abertura de nossas vias de comunicações, os consertos das que existem atualmente abandonadas e principalmente a eficaz proteção à vida, à segurança individual e à propriedade até aqui tidas em pouca consideração.
Uma divisa natural e por conseguinte incontestada deve ser sempre que for possível procurada pelos Legisladores em matéria de divisões, e pois os abaixo assinados tomam a liberdade de para divisas das duas Províncias o Rio Sapucaí, compreendendo-se na de São Paulo todo o território situado aquém deste rio, e as povoações que, para glória dos antigos paulistas são ainda hoje o vivo testemunho do começo de suas intrépidas e virtuosas excursões.
Os abaixo assinados confiam que a Augusta Assembléia Geral adotará a medida reclamada pelos interesses do país se essa Assembléia Provincial houver por bem coadjuvá-los em suas justas e incontestáveis pretensões. Deus guarde por muitos anos aos Senhores Deputados da Assembléia Legislativa Provincial de São Paulo.
São Jose do Paraíso, 6 de Novembro de 1853.’
Assinaturas :
Manoel Francisco Barbosa Sandoval, Cavaleiro Imperial da Ordem da Rosa , Sub-delegado 1º Suplente e Juiz de Paz.
Joaquim Francisco de Toledo.
Tenente Coronel Jose Vieira Carneiro.
João Pedro Pereira.
Capitão Jose Silvestre Machado.
João Bernardino de Castro.
Jose Justino Ribeiro.
Leandro Barcelos Bueno de Toledo.
Jose Fernandes da Silva Santos.
Francisco Floriano Pinto.
Mariano da Mota Paes.
Jose Thomaz Pereira Goulart.
Januário Rodrigues Mendes.
Francisco Joaquim de Almeida.
E mais 63 outros assinantes perfazendo 77 assinaturas. Todavia não logrou efeito essa manifestação do Sul de Minas em que tomaram parte Jaguary, São Caetano da Vargen Grande, Itajubá, Pouso Alegre, Ouro Fino, Campo Místico, Nossa Senhora da Consolação do Capivary, Cambuí, Bom Retiro, Santa Rita da Extrema e São Jose do Toledo".

(Paraisópolis de Ontem e Hoje, João Lopes de Paiva, cap. 18: “A vontade de ser paulista”, pág. 36)”

Em 25 de Agosto de 1866, viúvo e com 76 anos de idade, veio a falecer e foi sepultado no Cemitério de Paraisópolis.

Livro de Óbitos nº 1, da Freguezia de São Jose do Paraíso, MG:

“Aos vinte e cinco de Agosto de mil oitocentos sessenta e seis, neste Cemitério, foi sepultado o cadáver de Manoel Francisco Barboza Sandoval envolto em preto e de idade de setenta e seis annos, viuvo, de que para constar mandei fazer este termo.
O Vigr.o João Alves Carv.lho Guimarães.”

Poucas palavras encerraram a trajetória de um Cavaleiro Imperial que tentou fazer do Sul de Minas o Norte de São Paulo…

(fontes de pesquisas complementares: “A origem da família Barbosa Sandoval”, disponível em: http://rlavodnas.blogspot.com/; “Sandoval em Paraisópolis e Paraibuna”, disponível em: http://paraisopolisparaibuna.blogspot.com/; ambos acessados em 30/10/2010)

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Primeira descrição do município de Paraisópolis (1878)

71º MUNICÍPIO - Vila de São Jose do Paraíso.

A freguesia de São José do Paraíso, conhecida em outro tempo pelo nome de Campo do Lima, foi desmembrada do município de Itajubá e elevada a vila de 1872 a 1873. Pertence à comarca de Itajubá, e dista da Corte 70 léguas e de Ouro Preto 78. Tem um colégio eleitoral composto de 53 eleitores.

(fotografia tirada a partir da extremidade do atual calçadão; à direita, o Mercado Municipal, em primeiro plano, e pouco adiante o prédio da Cadeia e Fórum, onde hoje se localiza a Fonte Luminosa )

Esta vila está colocada em uma formosa localidade, rodeada de verdejantes colinas: todas elas como que se curvam ante aquela sobre cujo extenso platô se ergue risonha e florescente a povoação.


(fotografia tirada a partir de uma das torres da Igreja do Rosário, localizada onde hoje está a praça Centenário / Clube Recreativo)

A vila contém perto de 300 casas, além da cadeia e três igrejas. Tem seis ruas e quatro praças regulares. Há na vila três aulas de instrução primária. Há também ali uma grande fábrica de vinho, licores e outros produtos alcoólicos. O vinho não é perfeito, mas espera-se que com esforços e capricho se tornará excelente.


(fotografia do prédio onde funcionava a cadeia e o fórum da cidade, mais tarde Clube Literário e Recreativo "Bueno de Paiva", demolido para dar lugar à Fonte Luminosa, da praça Coronel José Vieira - disponível no Arquivo Público de Minas Gerais)

A população do município eleva-se a 21.163 almas. A sua lavoura não é má; planta-se muito fumo e já se começa a plantar o café e a cana; produz muito bem a uva e toda casta de cereais. Exporta muito gado, porcos, toucinho e queijos.

Seu comércio é sofrível e importa muita fazenda, louça, ferragens, molhados, sal e tudo o mais que compõe o nosso gênero de negócio.

O pessoal do município é excelente e composto de homens ricos, civilizados e religiosos.

O número de escravos matriculados na coletoria do município de Paraíso foi de 4.164, e o fundo de emancipação que lhe foi distribuído é de 8:292$789.

O número de ingênuos nascidos em três freguesias do município até o fim de 1876 foi de 371, dos quais faleceram 102.

O município divide por um lado com o de Itajubá; por outro com os de Pouso Alegre e Ouro Fino; e por outro com o de Jaguari.

Compõe-se das freguesias e distritos seguintes:
1ª) freguesia de São José do Paraíso;
2ª) freguesia de Capivari;
3ª) freguesia de São João Batista das Cachoeiras;
4ª) distrito de Santana do Sapucaí-Mirim;
5ª) distrito de Nossa Senhora da Conceição dos Ouros.

(“Tratado de geografia descritiva especial da província de Minas Gerais” / José Joaquim da Silva / 1878)

Os Primeiros Anos (1826 - 1850)

O local outrora conhecido como Campo do Lima ganhou, durante esse segundo quartel do século XIX, outras denominações: o vento que aqui sempre soprou batizou-o inicialmente de São José da Ventania; em 1831, graças às saúvas que proliferavam por essas terras, foi chamada de São José das Formigas.

Administrativamente submissa à Vila de Pouso Alegre, respondia à Diocese de São Paulo nas questões religiosas, o que evidenciava a disputa, ainda mal resolvida, de divisas entre as Províncias de Minas Gerais e São Paulo.

No pequeno povoado, de ruas de terra e casas de taipa, iniciava-se o comércio com outras localidades, graças à abertura das estradas que ligavam as duas províncias.

O Guarda Mor Carneiro exercia o poder político, e a cada ano novos habitantes chegavam. Estabelecimentos comerciais, fazendas, escravos, animais de criação, pequenas casas e extensões de terras cultivadas compunham a paisagem, como acontecia em outros lugares do Brasil em seus primeiros anos de Império independente.

(Detalhe da capa provisória do livro "Paraisópolis de Ontem e Hoje", de João Lopes de Paiva, que acabou sendo substituída pela capa com a imagem da Pensão Machado)

Alvará da Criação da Capela de São José das Formigas

Em 22 de Outubro de 1827, Dom Pedro I concede o Alvará para a construção da capela por solicitação dos moradores do Sapucaí Mirim, nome da região onde estava assente o Campo do Lima, território da Freguesia de Pouso Alegre, sendo presidente da Província de Minas Gerais o Dr. João José Lopes Mendes Ribeiro.

O decreto foi referendado pelo Ministro do Império, Visconde de Caravelas, expedindo o ato abaixo transcrito:

“FAÇO saber que, requerendo-me os moradores do Sapucaí Mirim e irmãos devotos de São José, colocado na capela do mesmo nome, ereta na Freguesia de São José, colocado na capela do mesmo nome, ereta na Freguesia de Pouso Alegre, bispado de São Paulo, a graça de lhes aprovar a Ereção da dita capela. O que, visto a resposta do Procurador Geral das Ordens, hei por bem aprovar e confirmar a ereção da mencionada capela, revalidando com esta mesma aprovação e validade com que a mesma se acha ereta, ficando salvos os direitos paroquiais e os da fábrica da Igreja Matriz e inibido o uso de sepulturas dentro do templo, mandando aos procuradores das Capelas respectivas e demais pessoas a quem seu consentimento pertencer o cumpram a guarde como nela se contém, sendo passada pela Chancelaria da Ordem, e valerá posto que o seu efeito o haja de declarar mais de um ano sem embargo de ordenação em contrário.
O Imperador mandou pelos Ministros do seu Conselho e o Deputado à Mesa da Consciência e Ordem, Cláudio Joaquim Freire o fez.
Rio de Janeiro, 22 de Outubro de 1827, sexto da Independência e do Império.
Pedro I – Imperador”

Após seis meses do decreto do Imperador Dom Pedro 1, em 17 de maio de 1828, ante o Alvará do Imperador, o Bispo de São Paulo, Dom Manuel, baixou o Cumpra-se e foi oficialmente ereta a Capela de São José das Formigas, registrando-se o mesmo Alvará em 13 de Janeiro de 1829, no livro do Tombo da Freguesia de Pouso Alegre pelo então vigário Cônego João Dias de Quadros Aranha, que se tornou o primeiro capelão da neo capela, inaugurando-a.

A igrejinha de São José das Formigas, tempos mais tarde, se tomou de importância, porque seu primeiro capelão foi eleito Senador do Império, e em 1845 tomando parte na Assembléia que outorgou a maioridade a Dom Pedro II.

(Paraisópolis de Ontem e Hoje, João Lopes de Paiva)

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

O Fundador

Francisco Vieira Carneiro e Maria Joaquina da Silva

Francisco Vieira Carneiro nasceu por volta de 1768, em Pouso Alto. Era filho do capitão Antonio Vieira Carneiro e Inácia Maria da Silva. Casou-se com Maria Joaquina da Silva, filha de Joaquim Fernandes de Freitas e Maria Leme da Silva, em 01/07/1797, em Resende.

No verbete sobre Paraisópolis, Waldemar Barbosa, em seu "Dicionário Histórico-Geográfico de Minas Gerais", cita o guarda-mor Francisco Vieira Carneiro:

"PARAISÓPOLIS - José Alves de Lima e sua família foram os primeiros moradores do local que, durante algum tempo, foi conhecido por 'Campo do Lima'. Foi o mesmo José Alves de Lima que, por volta de 1826, doou o patrimônio para a futura capela de São José. O verdadeiro fundador da povoação, entretanto, foi o guarda-mor Francisco Vieira Carneiro, a cujos esforços se deve a construção da capela, logo após a doação do patrimônio. Na tarefa da construção da capela, foi ele auxiliado por José Bernardes Rangel, João Antônio Pereira, Bibiano Teixeira Pinto, Zacarias Pereira Lima, Francisco José Uchoa, Manuel Garcia Guedes e Carlos Joaquim Pereira Guerra. Francisco Vieira Carneiro devia ser homem de influência, pois, logo após a construção da capela, dedicada a S. José, D. Pedro I assinava o alvará de 22 de outubro de 1827, aprovando e confirmando a ere-ção da capela; o referido alvará acha-se registrado no Livro I de Tombo da paróquia de Pouso Alegre".

Além do filho Francisco Vieira da Silva, também são conhecidas, ao certo, duas filhas do casal:
i) Josefa Maria da Silva, casada com seu primo Francisco Fernandes da Silva, filho de João Fernandes da Silva e Francisca Maria de Siqueira.
ii) Mariana Teresa de Jesus, casada com Joaquim Gomes dos Santos, filho de José Gomes dos Santos e Maria Joaquina.

Há alguns outros prováveis filhos, mas sem confirmação documental.

O guarda-mor Francisco Vieira Carneiro foi um dos fundadores de Paraisópolis-MG, possuindo terras na região de Cristina a Paraisópolis (MG). Estava vivo por volta de 1839, mas faleceu antes de 1854.

O Pioneiro

Consta que José Alves de Lima era um fazendeiro local quando aqui chegou o Guarda-Mor Francisco Vieira Carneiro. Provavelmente oriundo da região de Aiuruoca (porém, foram encontradas referências ao nome “José Alves de Lima” como descendente de um certo Capitão José Alves Lima, que se casou em meados do século 18 com Ana Maria da Conceição, natural de Aiuruoca – MG, tendo o casal 13 filhos, dentre os quais um de nome José Alves de Lima; há um documento de partilha de bens do Capitão José Alves Lima em São João Del Rei – MG).


Seja como for, o fazendeiro José Alves de Lima é tido como o primeiro ocupante das terras então denominadas “Campo do Lima”, tanto que, em 1826, doa uma parte delas para que fosse construída uma Capela em homenagem à São José, e em torno desta se desenvolveria um povoado.


Em pesquisas feitas na Internet, encontram-se referências à José Alves de Lima como também sendo um dos pioneiros na conquista e povoamento do Oeste Paulista.


Há indicações de que José Alves de Lima fizera parte do grupo de José Theodoro de Souza, “um homem franzino, de pequena estatura e fala mansa, tipo caboclo com fronte larga, olhos miúdos e queixo fino, pele clara com sardas, quase imberbe senão uma barba rala a cobrir-lhe o rosto e fios esparsos de cavanhaque no queixo. Vestia roupas simples e rudes, pés quase sempre descalços. Esta é a única descrição de um homem lendário, um obstinado matador de índios para lhes tomar as terras, porque também as ambicionava até onde a imaginação lhe pudesse levar, com isso a se tornar o mais ousado desbravador de sertões no oeste paulista no século 19, conseqüentemente o maior latifundiário particular de todos os tempos que São Paulo, capitania, província ou estado, já conheceu. Era intrépido, alegre, folgazão, festeiro e perdulário tanto, dizem, que chegou a trocar uma enorme fazenda por um negro escravo, violeiro e cantador de cateretê. Amado pelos amigos, odiado pelos inimigos, mas indistintamente temido por todos, se era chamado de Pai pelos nativos, a História, no entanto, o registrou para sempre como O Exterminador de Índios. Quase três décadas depois de 1847, quando de sua entrada triunfal em terras do oeste paulista, este homem morreu pobre e esquecido por todos, conta a história, exceto talvez por um indígena vingador de seu povo, que o matou a golpes de borduna em 24 de setembro de 1875, deixando o corpo no local para ser sepultado no Cemitério de São Pedro do Turvo, numa cova que de tão simples ninguém mais sabe onde encontrá-la.”


Fizeram parte da primeira comitiva [pioneira] de Theodoro, em 1847, José Alves de Lima, José da Cunha, Manoel Joaquim da Cunha, Messias José de Andrade, Manoel Alves dos Reis, Matheus Leite Moraes, João Vicente de Souza, Francisco de Souza Ramos [irmão de Theodoro], José Antonio Diniz e Anastácio José Feliciano. A todos José Theodoro doaria porções de terra para “congregar gente em um ponto determinado, onde pudesse surgir povoação, servindo de apoio àquele punhado de homens, perdidos na solidão imensa”.


José Alves de Lima instalou-se junto ao Correguinho da Porteira (Correguinho da Porteira deságua no rio Turvo principiava as terras de Theodoro, a fronteirar onde a propriedade dos herdeiros e meeira de José Alves de Lima que lhe faz divisa. O Correguinho da Porteira tornou-se conhecido por Correguinho ou Córrego dos Mineiros), nesta mesma época, vindo falecer algum tempo depois e sua posse entregue aos herdeiros e à sua viúva e meeira, conforme posto em Registro Paroquial de Terras, número 516, de José Theodoro de Souza.


Em outra cidade do Estado de São Paulo, há referências à José Alves de Lima.


“(...) no livro de número vinte, da Freguesia de Brotas, que está uma das primeiras referências históricas feitas a Dourado. Lá, no registro número sessenta do ano de 1856, feito em 5 de maio, há o registro de José Alves de Lima, natural de São José das Formigas, hoje conhecida como Paraisópolis, Minas Gerais. Está escrito no documento a seguinte referência “...no lugar denominado Dourado, que havia por posse feita há 26 anos mais ou menos”, por volta de 1830. Mais adiante, no dia 27 de maio do mesmo ano, Antonio José Vieira registrava uma parte de terras no valor de 285 mil réis e mais de oito alqueires de terras lavradias no local denominado Sítio das Contendas, situadas no “Bairro do Dourado” (folha cento e doze, registro número duzentos e quinze). Ainda em maio de 1856, Maria Francisca de Jesus, viúva de Joaquim Pereira de Araújo, também mineiro, registrava suas terras no “Sítio do Dourado”, situado às margens do Rio Jacaré-Pepira (folha cento e um verso, registro número cento e noventa).”


Datas à parte, também não há como negar que o fazendeiro que se estabeleceu aos pés do Machadão, era imbuído do mesmo espírito que o sertanista Gaspar Vaz da Cunha.