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sábado, 1 de junho de 2019

Antes das Minas Geraes...


... aqui era o “Sertão dos Cataguases”

Finalizamos a semana de pesquisas sobre os primeiros habitantes do Sul de Minas Gerais com um vasto material sobre os silvícolas que habitavam nossa região antes da chegada dos primeiros bandeirantes paulistas.

Instigados pelas urnas funerárias pré-coloniais descobertas na vizinha Conceição dos Ouros, e por outros registros arqueológicos, como pinturas rupestres em Extrema (sítio arqueológico em abrigo sob a rocha), sítios com fragmentos de cerâmicas indígenas em Itapeva (ambos estudados por pesquisadores da UFMG), e até mesmo registros de sítios arqueológicos estudados por uma empresa privada em Consolação (Pedra da Independência) e Paraisópolis!, os alunos se lançaram em pesquisas na internet sobre evidências da presença de tribos indígenas em nossa região.

Levaremos tempo para organizar o material pesquisado, mas há alguns pontos de convergência entre eles: aqui vivia o povo Cataguá, ou Cataguases, um dos 73 povos indígenas identificados no território mineiro, e possivelmente foi o grupo que mais resistiu à conquista dos bandeirantes. A prevalência de tais tribos sobre as demais era tamanha que originalmente a futura Capitania de Minas Gerais era conhecida como o “Sertão dos Cataguases”, e só deixou de ser assim conhecida após a criação da Capitania de Minas, separada de São Paulo em 1720.


(representação de uma aldeia indígena)


Integrante da bandeira de André de Leão, de 1601, que, seguindo o Vale do Rio Paraíba, adentrou nas terras desconhecidas dos Cataguases provavelmente pela Garganta do Embaú, o holandês Wilhelm Joos ten Glimmer (que tinha a função de prospectar minérios que indicassem a existência de ouro) descreveu os primeiros contatos com sinais de habitantes.

(Esboço Cartográfico do Caminho de São Paulo para o Sertão - Trecho da Serra da Mantiqueira – autor desconhecido)


Segundo o relato de Glimmer, a partir das cachoeiras do Paraíba do Sul, seguiram viagem “a pé, ao longo de outro rio que desce do lado ocidental e não se presta à navegação”. Após cinco ou seis dias de marcha, chegaram “à raiz de um monte altíssimo”, que transpuseram e chegaram a uma região de “campos mui descortinados”, cobertos por araucárias (o lado mineiro da Serra da Mantiqueira, atravessada a Garganta do Embaú?).



(representação das terras da Mantiqueira)


Três dias depois chegaram “a um rio que deriva do nascente” (o Rio Sapucaí?), encontrando “aqui e ali aldeias em ruínas”. Conforme relata Glimmer, “por aquelas solidões vagueavam com suas mulheres e filhos alguns selvagens que não tinham domicílio certo e não curavam de semear a terra”.

Isso confirma dados obtidos nas pesquisas de 2011 sobre o caráter nômade ou seminômade dos primeiros habitantes do Sul de Minas.

(Distribuição geográfica dos mineiríndios, segundo Oiliam José, no livro Indígenas de Minas Gerais, de 1965)


Segundo Oiliam José,

“os cataguases habitavam o Centro, o Oeste e o Sul de Minas Gerais até o século XVIII e subdividiam-se em diversas tribos de densa população. Na centúria seguinte, tiveram seu número sensivelmente diminuído até desaparecerem ou se misturarem aos brancos. Da região do Rio Sapucaí foram, antes, expulsos ou trazidos pelos bandeirantes para o Oeste e, junto do Rio Grande, sofreram terrível ataque desfechado em 1637 por Lourenço Taques.”

O extermínio dos cataguases impediu que mais informações sobre sua organização social, econômica e cultural, além de sua etnologia, chegassem até os dias de hoje.

Em tempo: a denominação que deram a si mesmos, cataguás, é formada pelas raízes tupis "ca + tu + auá", ou “gente boa”. Mais mineiro, impossível! 

sábado, 25 de maio de 2019

Primeira Fase – A Pré-História


“Somos devedores de parte do que somos aos que nos precederam. O dever de memória não se limita a guardar o rastro material, escrito ou outro, dos fatos acabados, mas entretém o sentimento de dever a outros, dos quais diremos mais adiante que não são mais, mas já foram. Pagar a dívida, diremos, mas também submeter a herança a inventário.” (Paul Ricoeur. A memória, a história, o esquecimento).

Mesmo que a ideia de contar a história de Paraisópolis já tenha dado seus primeiros passos (nesta nova etapa) apresentando uma descrição do município datada de 1878, não podemos ignorar o fato de que há indícios que nossa região tenha sido habitada por etnias indígenas, antes mesmo que os primeiros bandeirantes se atrevessem a adentrar a região conhecida como “Sertão dos Cataguases”. Esses povos, em sua maioria nômades, possivelmente os Cataguás (ou Cataguases), pertenciam ao tronco linguístico Macro-Jê, entendidos como perigosos e beligerantes, e talvez até canibais.


índios cataguases

O Sertão dos Cataguases, como Minas Gerais era conhecida à época, era considerada região proibida pela Coroa Portuguesa, e poucas bandeiras arriscavam-se a explorá-la. Foi somente após 1670 que a Coroa Portuguesa passou a organizar expedições mais robustas para explorar o Sertão Mineiro – a bandeira de Fernão Dias Paes Leme, o “Caçador de Esmeraldas”, reunia aproximadamente 600 homens! Duas são as rotas prováveis de Fernão Dias: uma, que partia da Vila de São Paulo de Piratininga, descia o vale do Rio Paraíba até a região de Lorena, e de lá atravessou para Minas Gerais pela Garganta do Embaú, indo se estabelecer onde hoje é a atual Baependi; a outra rota, também partindo da Vila de São Paulo de Piratininga, subiu a região dos rios Atibaia e Jaguari (literalmente, subindo a rodovia Fernão Dias!). Seu objetivo era a região de Sabarabuçu e sua lendária montanha de esmeraldas!


pintura retratando os índios brasileiros, do alemão Johann Moritz Rugendas


Estudiosos que se debruçaram sobre os mineiríndios (termo utilizado por Oilam José, em seu livro “Indígenas de Minas Gerais – aspectos sociais, políticos e etnológicos”, datado de 1965, para se referenciar aos indígenas que habitavam a região das Minas Gerais colonial) reconhecem que há uma lacuna nos registros históricos acerca da presença, ocupação e história, das tribos indígenas que viviam em nossa região.

E é justamente nessa investigação que nos dedicaremos nas próximas semanas!

Buscaremos levantar as diversas fontes disponíveis na Internet para traçar um esboço do que seria a pré-história de Paraisópolis: a história da presença humana antes dos primeiros bandeirantes que exploraram nossa região, seguindo os passos de Gaspar Vaz da Cunha. As urnas funerárias descobertas em Conceição dos Ouros permitem supor que outros indígenas por aqui também estiveram!


Múmia de um indígena. Obra de Jean-Baptiste Debret. O documento etnográfico acima mostra que o corpo foi sepultado no interior de uma igaçaba cerâmica (urna funerária). Modelo de estrutura funerária comum identificada em sítios arqueológicos no estado de Minas Gerais, incluindo o sul do estado


Infelizmente, a ocupação territorial de Paraisópolis nunca registrou indícios da presença humana antes dos bandeirantes: nenhum caco de cerâmica, pintura rupestre, urna funerária...

Mas, com um pouco de pesquisa e comparação das diversas fontes e relatos de expedições que exploraram os Sertões dos Cataguases atrás do cobiçado ouro, talvez seja possível traçar um perfil dos primeiros habitantes de Paraisópolis – mesmo que nunca tenham se fixado por aqui, é válido supor que os primeiros paraisopolenses eram indígenas!

sábado, 11 de maio de 2019

Nova etapa

Do início do ano letivo até a semana anterior, os alunos que fazem parte desta nova fase do Projeto Paraisópolis Histórico receberam as instruções sobre a criação do banco de dados que agrupará diversas informações e imagens históricas sobre a cidade.
Foram semanas de aulas de programação, nas quais os alunos aprenderam a desenvolver bancos de dados e criar as interfaces e códigos utilizando linguagem de programação.
Agora, estamos iniciando uma nova etapa: o aprendizado dos softwares que serão utilizados para a criação dos textos com recursos de multimídia e o tratamento das imagens que serão selecionadas e disponibilizadas no material digital desenvolvido.
Além disso, agora iniciaremos a etapa de organização dos materiais anteriormente pesquisados (catalogação das fontes, seleção dos materiais, digitalização e classificação) e o estabelecimento da cronologia da História de Paraisópolis.
Novas pesquisas deverão ser realizadas e novos materiais serão adicionados aos que já temos.
Com o desenvolvimento desta etapa, nosso progresso será relatado aqui.
Como uma prévia, deixo aqui imagens do "Tratado de Geographia Descriptiva Especial da Provincia de Minas Geraes", de José Joaquim da Silva (datado de 1878), que traz uma descrição da Vila de São José do Paraíso (páginas 165 e 166), cujo texto já foi publicado neste blog:





domingo, 31 de outubro de 2010

Libertas Quæ Sera Tamen

“Nem paulistas, nem mineiros: queremos independência!” – A história pouco conhecida dos movimentos separatistas do Sul de Minas.

A iniciativa dos municípios da região sul mineira descrita no post anterior não foi algo impensado, ou sem um respaldo mais amplo. Os primeiros projetos separatistas apresentados à Assembléia Estadual na década de 1840 preconizavam a anexação do Sul de Minas Gerais ao território de São Paulo. Mas o que alguns políticos mineiros pretendiam era a criação de uma nova província na região sul-mineira.
Em sessão da Câmara dos Deputados, a 29 de abril de 1843, o conselheiro Bernardo Jacinto da Veiga discursou pela divisão de Minas Gerais:
“Sou de opinião que a província de Minas deve dividir-se, e se aparecesse nesta casa um projeto compreendendo esse pedaço (comarca do Sapucaí), parte da comarca do Rio Verde, e mais alguma coisa para formar uma província, eu daria o meu voto com muita satisfação.”
Com essa idéia derrotada, por mais de uma década o separatismo sulmineiro ficou relegado à discussões menores.
Com a criação da província do Paraná em 1853, retomaram-se os debates sobre a divisão territorial de Minas Gerais e sobre a transformação da região sul-mineira em província independente. Em 1854, um dos deputados pelo Distrito Neutro, o conselheiro Francisco Octaviano, apresentou à Câmara um Projeto de Lei com as seguintes decisões:
Art. 1º As Comarcas do Sapucaí, Rio Verde e Três Pontas, e o município de Lavras, pertencentes à província de Minas, formarão uma nova província. Tendo por capital provisória o lugar que o governo designe, até definitiva resolução da assembléia provincial respectiva.
Art. 2º Os limites atuais daqueles pontos em relação às outras províncias, depois de verificados administrativamente, serão os limites da nova província (MONITOR SUL-MINEIRO, 13/07/1873).
Mais uma vez o separatismo sulmineiro foi derrotado pelos interesses do governo.
Em 1862, o deputado Dr. Evaristo Ferreira da Veiga apresentou, sem êxito, Projeto de Lei que dividia Minas Gerais em duas partes e criava uma nova província com a denominação de Minas do Sul. Suas disposições eram as seguintes:
Art. 1º Fica elevado à categoria de província, com a denominação de província de Minas do Sul, o território da província de Minas Gerais, compreendido entre as do Rio de Janeiro, São Paulo e Goiás, tendo por limites o rio Turvo até sua confluência no rio Grande; este abaixo até as contravertentes do Rio São Francisco, a alcançar a cordilheira que divide as águas do mesmo rio São Francisco das do rio Paranaíba; e este abaixo desde sua nascente na mesma cordilheira até os limites da província de Goiás.
Art. 2º A nova província terá por capital a cidade da Campanha da Princesa, enquanto a assembléia respectiva não decretar o contrário.
Art. 3º A província de Minas do Sul dará três senadores e dez deputados à assembléia geral; sua assembléia provincial constará de 28 membros. Dos 10 atuais senadores da província de Minas Gerais serão designados por parte, em sessão do senado, depois de sancionada esta lei, os três que serão considerados da província de Minas do Sul.
Art. 4º Os atuais 3º e 4º distritos eleitorais da província de Minas Gerais darão cada uma 2, em vez de 3 deputados e o 7º continuará a dar 2; e a mesma província dará sete senadores e sua assembléia provincial terá 35 membros.
Art. 5º A Província de Minas do Sul fica dividida em dois distritos eleitorais: o 1º compreendendo os municípios da Aiuruoca, Baependi, Cristina, Itajubá, Jaguari, Pouso Alegre, Caldas, Alfenas, Campanha, Três Pontas e Lavras; e o 2º as de Passos, Jacuí, Uberaba, Desemboque, Araxá,  Campo Grande, Prata, Bagagem e Patrocínio; continuando a ser apuradora do 1º distrito a câmara municipal da Campanha da Princeza e será do 2º a do Araxá.
Art. 6º O governo fica autorizado para criar na província de Minas do Sul administração dos correios, tesouraria de fazenda, que será encarregada também da arrecadação e administração das atuais rendas provinciais enquanto a assembléia respectiva não decretar o contrário, e as secretarias de polícia e da presidência, subsistindo a organização desta enquanto a mesma assembléia não alterá-la (MONITOR SUL-MINEIRO, 1873).
Outro Projeto de Lei, apresentado pelo deputado Américo Lobo, a 11 de Julho de 1868, continha as seguintes disposições:
Art. 1º Ficam elevados à categoria de província, com a denominação de província do Sapucaí, o município de Lavras e os que compõem as comarcas de Baependi, Jaguari, Sapucaí e Rio Grande, da província de Minas Gerais, menos o termo de Pium-í.
Art. 2º A cidade da Campanha da Princesa será a capital da província do Sapucaí, enquanto a respectiva assembléia não deliberar o contrário.
Art. 3º A província do Sapucaí dará 2 senadores e 5 deputados à Assembléia Geral; sua Assembléia Provincial comporá de 28 membros. Dos 10 senadores da província de Minas Gerais serão designados por sorte, em sessão do Senado, depois de sancionada a presente lei, os que serão considerados da província do Sapucaí.
Art. 4º Dará 2 deputados à Assembléia Geral o atual 3º distrito da província de Minas Gerais, cuja Assembléia Provincial constará de 45 membros.
Art. 5º A província do Sapucaí fica dividida em dois distritos eleitorais, dos quais o 2º dará dois deputados à Assembléia Geral e doze à Provincial: o governo designará os respectivos colégios eleitorais e câmaras apuradoras.
Art. 6º O governo fica autorizado para criar na província do Sapucaí a administração dos correios, tesouraria da fazenda, que será também encarregada da administração e arrecadação das atuais rendas provinciais, enquanto a respectiva assembléia não decretar o contrário, e as secretarias da polícia e presidência, subsistindo à organização desta, enquanto a mesma assembléia não altera-la. [...] (MONITOR SUL-MINEIRO, 20/07/1873).
Um último projeto separatista foi apresentado à Câmara dos Deputados pelo Dr. Olímpio Valladão, a 8 de julho de 1884. Seu teor e forma não diferiam dos projetos anteriores, sendo que a circunspeção proposta para a nova província limitava-se apenas às comarcas do Sul de Minas Gerais.

sábado, 30 de outubro de 2010

Os Primeiros Anos: Entre a Cruz e a Espada

Capítulo I – Um Cavaleiro Imperial no Paraíso

Manoel Francisco Barbosa Sandoval, Cavaleiro da Imperial Ordem da Rosa

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Condecorado por D. Pedro II aos 2/12/1850

Dizem que a história é composta e contada por fatos, mas o que seriam dos fatos se não fossem os personagens que ocasionam, criam, vivem, os fatos?

Gaspar Vaz da Cunha, José Alves de Lima e Francisco Vieira Carneiro, sem dúvidas, são os pilares sobre os quais se ergueu Paraisópolis (sem, é claro, nos esquecermos daqueles que, ao lado dos referidos, lutaram pelo desbravamento destas terras e pela construção da primeira igreja e da vila), mas ainda nos primeiros anos de existência recebemos como morador um ilustre personagem: Manoel Francisco Barbosa Sandoval, Cavaleiro da Imperial Ordem da Rosa, condecorado pelo próprio Imperador D. Pedro II.

Nascido em São Gonçalo do Sapucaí, MG, em 1790, alista-se no Exército Imperial e, como militar, percorre boa parte da região Sul do País, casando-se em 1809 com Eufrazia Joaquina Rosa e constituindo família. Por volta de 1840 retorna à região sul mineira

Em 1850, aos 2 de Dezembro, foi nomeado, por decreto da mesma data, Cavaleiro da Ordem da Rosa Imperial pelo Imperador D. Pedro II. Do Arquivo Nacional, Rio de Janeiro, Notação Ordens Honoríficas, Ordem da Rosa :

"Hei por bem nomear Cavalleiros da Ordem da Rosa as pessoas mencionadas na relação que com este abaixo assignado pelo Visconde de Montalegre do Meu Conselho de Estado e Ministro e Secretario de Estado dos Negocios do Império.

Palacio do Rio de Janeiro em dois de Dezembro de mil oitocentos e cincoenta, vigésimo nono da Independência e do Império.

P [letra P rebuscada, assinatura do Imperador D. Pedro II]

Visconde de Montalegre

Reg,do a f. 44 do L.o 2ð
de sism.es
2 10.bro 1850 [2 de Dezembro de 1850]

Relação das pessoas nomeadas Cavalleiros da Ordem da Rosa a que se refere o Decreto desta data.

Manoel Francisco Barboza Sandoval --- Minas".

Sua participação na história de Paraisópolis está ligada à um pitoresco episódio: queríamos ser paulistas! Em 1853, ocupando os cargos de Subdelegado, Primeiro Suplente e Juiz de Paz em São José do Paraíso, em 6 de novembro de 1853, é citado numa petição para passar a cidade para a Província de São Paulo. Do livro "Paraisópolis de Ontem e Hoje", de João Lopes de Paiva , 1982.

“Estava assim redigida a petição da Freguesia de São Jose do Paraíso solicitando a anexação do seu território à Província de São Paulo:
’Ilustríssimos Senhores Membros da Assembléia Legislativa Provincial de São Paulo.
Os moradores da Freguesia de São Jose do Paraíso do Município de Pouso Alegre da Província de Minas Gerais abaixo assinados, anelando fruir as vantagens que a solicitude do Governo dessa Província tem proporcionado aos seus habitantes, mui respeitosamente vem procurar a coadjuvação dessa ilustrada Assembléia perante a Augusta Assembléia Legislativa do Império afim de adotar-se a medida que há de realizar os desejos e as vistas dos abaixo assinados.
A posição topográfica, as relações comerciais religiosas e familiares reclamam altamente esta medida.
Distante 25 léguas apenas dessa Capital e mais de 80 da sede do Governo de Minas, pertencendo a São Paulo, os abaixo assinados esperam receber o desenvolvimento que o comércio, a agricultura e a indústria pode trazer o alívio de anti-econômicos e pesados tributos, a abertura de nossas vias de comunicações, os consertos das que existem atualmente abandonadas e principalmente a eficaz proteção à vida, à segurança individual e à propriedade até aqui tidas em pouca consideração.
Uma divisa natural e por conseguinte incontestada deve ser sempre que for possível procurada pelos Legisladores em matéria de divisões, e pois os abaixo assinados tomam a liberdade de para divisas das duas Províncias o Rio Sapucaí, compreendendo-se na de São Paulo todo o território situado aquém deste rio, e as povoações que, para glória dos antigos paulistas são ainda hoje o vivo testemunho do começo de suas intrépidas e virtuosas excursões.
Os abaixo assinados confiam que a Augusta Assembléia Geral adotará a medida reclamada pelos interesses do país se essa Assembléia Provincial houver por bem coadjuvá-los em suas justas e incontestáveis pretensões. Deus guarde por muitos anos aos Senhores Deputados da Assembléia Legislativa Provincial de São Paulo.
São Jose do Paraíso, 6 de Novembro de 1853.’
Assinaturas :
Manoel Francisco Barbosa Sandoval, Cavaleiro Imperial da Ordem da Rosa , Sub-delegado 1º Suplente e Juiz de Paz.
Joaquim Francisco de Toledo.
Tenente Coronel Jose Vieira Carneiro.
João Pedro Pereira.
Capitão Jose Silvestre Machado.
João Bernardino de Castro.
Jose Justino Ribeiro.
Leandro Barcelos Bueno de Toledo.
Jose Fernandes da Silva Santos.
Francisco Floriano Pinto.
Mariano da Mota Paes.
Jose Thomaz Pereira Goulart.
Januário Rodrigues Mendes.
Francisco Joaquim de Almeida.
E mais 63 outros assinantes perfazendo 77 assinaturas. Todavia não logrou efeito essa manifestação do Sul de Minas em que tomaram parte Jaguary, São Caetano da Vargen Grande, Itajubá, Pouso Alegre, Ouro Fino, Campo Místico, Nossa Senhora da Consolação do Capivary, Cambuí, Bom Retiro, Santa Rita da Extrema e São Jose do Toledo".

(Paraisópolis de Ontem e Hoje, João Lopes de Paiva, cap. 18: “A vontade de ser paulista”, pág. 36)”

Em 25 de Agosto de 1866, viúvo e com 76 anos de idade, veio a falecer e foi sepultado no Cemitério de Paraisópolis.

Livro de Óbitos nº 1, da Freguezia de São Jose do Paraíso, MG:

“Aos vinte e cinco de Agosto de mil oitocentos sessenta e seis, neste Cemitério, foi sepultado o cadáver de Manoel Francisco Barboza Sandoval envolto em preto e de idade de setenta e seis annos, viuvo, de que para constar mandei fazer este termo.
O Vigr.o João Alves Carv.lho Guimarães.”

Poucas palavras encerraram a trajetória de um Cavaleiro Imperial que tentou fazer do Sul de Minas o Norte de São Paulo…

(fontes de pesquisas complementares: “A origem da família Barbosa Sandoval”, disponível em: http://rlavodnas.blogspot.com/; “Sandoval em Paraisópolis e Paraibuna”, disponível em: http://paraisopolisparaibuna.blogspot.com/; ambos acessados em 30/10/2010)

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Primeira descrição do município de Paraisópolis (1878)

71º MUNICÍPIO - Vila de São Jose do Paraíso.

A freguesia de São José do Paraíso, conhecida em outro tempo pelo nome de Campo do Lima, foi desmembrada do município de Itajubá e elevada a vila de 1872 a 1873. Pertence à comarca de Itajubá, e dista da Corte 70 léguas e de Ouro Preto 78. Tem um colégio eleitoral composto de 53 eleitores.

(fotografia tirada a partir da extremidade do atual calçadão; à direita, o Mercado Municipal, em primeiro plano, e pouco adiante o prédio da Cadeia e Fórum, onde hoje se localiza a Fonte Luminosa )

Esta vila está colocada em uma formosa localidade, rodeada de verdejantes colinas: todas elas como que se curvam ante aquela sobre cujo extenso platô se ergue risonha e florescente a povoação.


(fotografia tirada a partir de uma das torres da Igreja do Rosário, localizada onde hoje está a praça Centenário / Clube Recreativo)

A vila contém perto de 300 casas, além da cadeia e três igrejas. Tem seis ruas e quatro praças regulares. Há na vila três aulas de instrução primária. Há também ali uma grande fábrica de vinho, licores e outros produtos alcoólicos. O vinho não é perfeito, mas espera-se que com esforços e capricho se tornará excelente.


(fotografia do prédio onde funcionava a cadeia e o fórum da cidade, mais tarde Clube Literário e Recreativo "Bueno de Paiva", demolido para dar lugar à Fonte Luminosa, da praça Coronel José Vieira - disponível no Arquivo Público de Minas Gerais)

A população do município eleva-se a 21.163 almas. A sua lavoura não é má; planta-se muito fumo e já se começa a plantar o café e a cana; produz muito bem a uva e toda casta de cereais. Exporta muito gado, porcos, toucinho e queijos.

Seu comércio é sofrível e importa muita fazenda, louça, ferragens, molhados, sal e tudo o mais que compõe o nosso gênero de negócio.

O pessoal do município é excelente e composto de homens ricos, civilizados e religiosos.

O número de escravos matriculados na coletoria do município de Paraíso foi de 4.164, e o fundo de emancipação que lhe foi distribuído é de 8:292$789.

O número de ingênuos nascidos em três freguesias do município até o fim de 1876 foi de 371, dos quais faleceram 102.

O município divide por um lado com o de Itajubá; por outro com os de Pouso Alegre e Ouro Fino; e por outro com o de Jaguari.

Compõe-se das freguesias e distritos seguintes:
1ª) freguesia de São José do Paraíso;
2ª) freguesia de Capivari;
3ª) freguesia de São João Batista das Cachoeiras;
4ª) distrito de Santana do Sapucaí-Mirim;
5ª) distrito de Nossa Senhora da Conceição dos Ouros.

(“Tratado de geografia descritiva especial da província de Minas Gerais” / José Joaquim da Silva / 1878)

Alvará da Criação da Capela de São José das Formigas

Em 22 de Outubro de 1827, Dom Pedro I concede o Alvará para a construção da capela por solicitação dos moradores do Sapucaí Mirim, nome da região onde estava assente o Campo do Lima, território da Freguesia de Pouso Alegre, sendo presidente da Província de Minas Gerais o Dr. João José Lopes Mendes Ribeiro.

O decreto foi referendado pelo Ministro do Império, Visconde de Caravelas, expedindo o ato abaixo transcrito:

“FAÇO saber que, requerendo-me os moradores do Sapucaí Mirim e irmãos devotos de São José, colocado na capela do mesmo nome, ereta na Freguesia de São José, colocado na capela do mesmo nome, ereta na Freguesia de Pouso Alegre, bispado de São Paulo, a graça de lhes aprovar a Ereção da dita capela. O que, visto a resposta do Procurador Geral das Ordens, hei por bem aprovar e confirmar a ereção da mencionada capela, revalidando com esta mesma aprovação e validade com que a mesma se acha ereta, ficando salvos os direitos paroquiais e os da fábrica da Igreja Matriz e inibido o uso de sepulturas dentro do templo, mandando aos procuradores das Capelas respectivas e demais pessoas a quem seu consentimento pertencer o cumpram a guarde como nela se contém, sendo passada pela Chancelaria da Ordem, e valerá posto que o seu efeito o haja de declarar mais de um ano sem embargo de ordenação em contrário.
O Imperador mandou pelos Ministros do seu Conselho e o Deputado à Mesa da Consciência e Ordem, Cláudio Joaquim Freire o fez.
Rio de Janeiro, 22 de Outubro de 1827, sexto da Independência e do Império.
Pedro I – Imperador”

Após seis meses do decreto do Imperador Dom Pedro 1, em 17 de maio de 1828, ante o Alvará do Imperador, o Bispo de São Paulo, Dom Manuel, baixou o Cumpra-se e foi oficialmente ereta a Capela de São José das Formigas, registrando-se o mesmo Alvará em 13 de Janeiro de 1829, no livro do Tombo da Freguesia de Pouso Alegre pelo então vigário Cônego João Dias de Quadros Aranha, que se tornou o primeiro capelão da neo capela, inaugurando-a.

A igrejinha de São José das Formigas, tempos mais tarde, se tomou de importância, porque seu primeiro capelão foi eleito Senador do Império, e em 1845 tomando parte na Assembléia que outorgou a maioridade a Dom Pedro II.

(Paraisópolis de Ontem e Hoje, João Lopes de Paiva)