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sábado, 1 de junho de 2019

Antes das Minas Geraes...


... aqui era o “Sertão dos Cataguases”

Finalizamos a semana de pesquisas sobre os primeiros habitantes do Sul de Minas Gerais com um vasto material sobre os silvícolas que habitavam nossa região antes da chegada dos primeiros bandeirantes paulistas.

Instigados pelas urnas funerárias pré-coloniais descobertas na vizinha Conceição dos Ouros, e por outros registros arqueológicos, como pinturas rupestres em Extrema (sítio arqueológico em abrigo sob a rocha), sítios com fragmentos de cerâmicas indígenas em Itapeva (ambos estudados por pesquisadores da UFMG), e até mesmo registros de sítios arqueológicos estudados por uma empresa privada em Consolação (Pedra da Independência) e Paraisópolis!, os alunos se lançaram em pesquisas na internet sobre evidências da presença de tribos indígenas em nossa região.

Levaremos tempo para organizar o material pesquisado, mas há alguns pontos de convergência entre eles: aqui vivia o povo Cataguá, ou Cataguases, um dos 73 povos indígenas identificados no território mineiro, e possivelmente foi o grupo que mais resistiu à conquista dos bandeirantes. A prevalência de tais tribos sobre as demais era tamanha que originalmente a futura Capitania de Minas Gerais era conhecida como o “Sertão dos Cataguases”, e só deixou de ser assim conhecida após a criação da Capitania de Minas, separada de São Paulo em 1720.


(representação de uma aldeia indígena)


Integrante da bandeira de André de Leão, de 1601, que, seguindo o Vale do Rio Paraíba, adentrou nas terras desconhecidas dos Cataguases provavelmente pela Garganta do Embaú, o holandês Wilhelm Joos ten Glimmer (que tinha a função de prospectar minérios que indicassem a existência de ouro) descreveu os primeiros contatos com sinais de habitantes.

(Esboço Cartográfico do Caminho de São Paulo para o Sertão - Trecho da Serra da Mantiqueira – autor desconhecido)


Segundo o relato de Glimmer, a partir das cachoeiras do Paraíba do Sul, seguiram viagem “a pé, ao longo de outro rio que desce do lado ocidental e não se presta à navegação”. Após cinco ou seis dias de marcha, chegaram “à raiz de um monte altíssimo”, que transpuseram e chegaram a uma região de “campos mui descortinados”, cobertos por araucárias (o lado mineiro da Serra da Mantiqueira, atravessada a Garganta do Embaú?).



(representação das terras da Mantiqueira)


Três dias depois chegaram “a um rio que deriva do nascente” (o Rio Sapucaí?), encontrando “aqui e ali aldeias em ruínas”. Conforme relata Glimmer, “por aquelas solidões vagueavam com suas mulheres e filhos alguns selvagens que não tinham domicílio certo e não curavam de semear a terra”.

Isso confirma dados obtidos nas pesquisas de 2011 sobre o caráter nômade ou seminômade dos primeiros habitantes do Sul de Minas.

(Distribuição geográfica dos mineiríndios, segundo Oiliam José, no livro Indígenas de Minas Gerais, de 1965)


Segundo Oiliam José,

“os cataguases habitavam o Centro, o Oeste e o Sul de Minas Gerais até o século XVIII e subdividiam-se em diversas tribos de densa população. Na centúria seguinte, tiveram seu número sensivelmente diminuído até desaparecerem ou se misturarem aos brancos. Da região do Rio Sapucaí foram, antes, expulsos ou trazidos pelos bandeirantes para o Oeste e, junto do Rio Grande, sofreram terrível ataque desfechado em 1637 por Lourenço Taques.”

O extermínio dos cataguases impediu que mais informações sobre sua organização social, econômica e cultural, além de sua etnologia, chegassem até os dias de hoje.

Em tempo: a denominação que deram a si mesmos, cataguás, é formada pelas raízes tupis "ca + tu + auá", ou “gente boa”. Mais mineiro, impossível! 

domingo, 26 de maio de 2019

As urnas funerárias de Conceição dos Ouros/MG

Urna funerária indígena resgatada na casa de Pedro Ferreira Neto, em 1998

Segundo a jornalista Carla Barbosa publicou em seu blog, em 1998 foram descobertos vasos de cerâmica e uma ossada durante uma obra em uma residência na cidade de Conceição dos Ouros.

Alertados pela possível importância da descoberta, pesquisadores da UFMG e do Museu de História Natural, liderados pelo professor André Prous, realizaram estudos e novas escavações, encontrando outras duas urnas funerárias, mais cerâmicas e algumas pontas de flechas.

Em 2013, conforme notícia disponível no portal G1, outra urna indígena foi descoberta no bairro Chácara, durante uma obra de ligação de rede de esgoto. 

Urna indígena descoberta em 2013 (Fonte: Portal Cachoeira de Minas)
Estudos realizados datam as descobertas em até 700 anos atrás, ou seja, podemos supor que nossa região já era habitada por índios cerca de 200 anos antes da chegada dos portugueses ao Brasil! E podemos acrescentar à lista de sítios de relevância arqueológica os descobertos nas cidades de Itapeva, Camanducaia e Extrema, que podem jogar essa data para mais longe ainda!



sábado, 25 de maio de 2019

Primeira Fase – A Pré-História


“Somos devedores de parte do que somos aos que nos precederam. O dever de memória não se limita a guardar o rastro material, escrito ou outro, dos fatos acabados, mas entretém o sentimento de dever a outros, dos quais diremos mais adiante que não são mais, mas já foram. Pagar a dívida, diremos, mas também submeter a herança a inventário.” (Paul Ricoeur. A memória, a história, o esquecimento).

Mesmo que a ideia de contar a história de Paraisópolis já tenha dado seus primeiros passos (nesta nova etapa) apresentando uma descrição do município datada de 1878, não podemos ignorar o fato de que há indícios que nossa região tenha sido habitada por etnias indígenas, antes mesmo que os primeiros bandeirantes se atrevessem a adentrar a região conhecida como “Sertão dos Cataguases”. Esses povos, em sua maioria nômades, possivelmente os Cataguás (ou Cataguases), pertenciam ao tronco linguístico Macro-Jê, entendidos como perigosos e beligerantes, e talvez até canibais.


índios cataguases

O Sertão dos Cataguases, como Minas Gerais era conhecida à época, era considerada região proibida pela Coroa Portuguesa, e poucas bandeiras arriscavam-se a explorá-la. Foi somente após 1670 que a Coroa Portuguesa passou a organizar expedições mais robustas para explorar o Sertão Mineiro – a bandeira de Fernão Dias Paes Leme, o “Caçador de Esmeraldas”, reunia aproximadamente 600 homens! Duas são as rotas prováveis de Fernão Dias: uma, que partia da Vila de São Paulo de Piratininga, descia o vale do Rio Paraíba até a região de Lorena, e de lá atravessou para Minas Gerais pela Garganta do Embaú, indo se estabelecer onde hoje é a atual Baependi; a outra rota, também partindo da Vila de São Paulo de Piratininga, subiu a região dos rios Atibaia e Jaguari (literalmente, subindo a rodovia Fernão Dias!). Seu objetivo era a região de Sabarabuçu e sua lendária montanha de esmeraldas!


pintura retratando os índios brasileiros, do alemão Johann Moritz Rugendas


Estudiosos que se debruçaram sobre os mineiríndios (termo utilizado por Oilam José, em seu livro “Indígenas de Minas Gerais – aspectos sociais, políticos e etnológicos”, datado de 1965, para se referenciar aos indígenas que habitavam a região das Minas Gerais colonial) reconhecem que há uma lacuna nos registros históricos acerca da presença, ocupação e história, das tribos indígenas que viviam em nossa região.

E é justamente nessa investigação que nos dedicaremos nas próximas semanas!

Buscaremos levantar as diversas fontes disponíveis na Internet para traçar um esboço do que seria a pré-história de Paraisópolis: a história da presença humana antes dos primeiros bandeirantes que exploraram nossa região, seguindo os passos de Gaspar Vaz da Cunha. As urnas funerárias descobertas em Conceição dos Ouros permitem supor que outros indígenas por aqui também estiveram!


Múmia de um indígena. Obra de Jean-Baptiste Debret. O documento etnográfico acima mostra que o corpo foi sepultado no interior de uma igaçaba cerâmica (urna funerária). Modelo de estrutura funerária comum identificada em sítios arqueológicos no estado de Minas Gerais, incluindo o sul do estado


Infelizmente, a ocupação territorial de Paraisópolis nunca registrou indícios da presença humana antes dos bandeirantes: nenhum caco de cerâmica, pintura rupestre, urna funerária...

Mas, com um pouco de pesquisa e comparação das diversas fontes e relatos de expedições que exploraram os Sertões dos Cataguases atrás do cobiçado ouro, talvez seja possível traçar um perfil dos primeiros habitantes de Paraisópolis – mesmo que nunca tenham se fixado por aqui, é válido supor que os primeiros paraisopolenses eram indígenas!

sábado, 11 de maio de 2019

Nova etapa

Do início do ano letivo até a semana anterior, os alunos que fazem parte desta nova fase do Projeto Paraisópolis Histórico receberam as instruções sobre a criação do banco de dados que agrupará diversas informações e imagens históricas sobre a cidade.
Foram semanas de aulas de programação, nas quais os alunos aprenderam a desenvolver bancos de dados e criar as interfaces e códigos utilizando linguagem de programação.
Agora, estamos iniciando uma nova etapa: o aprendizado dos softwares que serão utilizados para a criação dos textos com recursos de multimídia e o tratamento das imagens que serão selecionadas e disponibilizadas no material digital desenvolvido.
Além disso, agora iniciaremos a etapa de organização dos materiais anteriormente pesquisados (catalogação das fontes, seleção dos materiais, digitalização e classificação) e o estabelecimento da cronologia da História de Paraisópolis.
Novas pesquisas deverão ser realizadas e novos materiais serão adicionados aos que já temos.
Com o desenvolvimento desta etapa, nosso progresso será relatado aqui.
Como uma prévia, deixo aqui imagens do "Tratado de Geographia Descriptiva Especial da Provincia de Minas Geraes", de José Joaquim da Silva (datado de 1878), que traz uma descrição da Vila de São José do Paraíso (páginas 165 e 166), cujo texto já foi publicado neste blog:





domingo, 31 de outubro de 2010

Libertas Quæ Sera Tamen

“Nem paulistas, nem mineiros: queremos independência!” – A história pouco conhecida dos movimentos separatistas do Sul de Minas.

A iniciativa dos municípios da região sul mineira descrita no post anterior não foi algo impensado, ou sem um respaldo mais amplo. Os primeiros projetos separatistas apresentados à Assembléia Estadual na década de 1840 preconizavam a anexação do Sul de Minas Gerais ao território de São Paulo. Mas o que alguns políticos mineiros pretendiam era a criação de uma nova província na região sul-mineira.
Em sessão da Câmara dos Deputados, a 29 de abril de 1843, o conselheiro Bernardo Jacinto da Veiga discursou pela divisão de Minas Gerais:
“Sou de opinião que a província de Minas deve dividir-se, e se aparecesse nesta casa um projeto compreendendo esse pedaço (comarca do Sapucaí), parte da comarca do Rio Verde, e mais alguma coisa para formar uma província, eu daria o meu voto com muita satisfação.”
Com essa idéia derrotada, por mais de uma década o separatismo sulmineiro ficou relegado à discussões menores.
Com a criação da província do Paraná em 1853, retomaram-se os debates sobre a divisão territorial de Minas Gerais e sobre a transformação da região sul-mineira em província independente. Em 1854, um dos deputados pelo Distrito Neutro, o conselheiro Francisco Octaviano, apresentou à Câmara um Projeto de Lei com as seguintes decisões:
Art. 1º As Comarcas do Sapucaí, Rio Verde e Três Pontas, e o município de Lavras, pertencentes à província de Minas, formarão uma nova província. Tendo por capital provisória o lugar que o governo designe, até definitiva resolução da assembléia provincial respectiva.
Art. 2º Os limites atuais daqueles pontos em relação às outras províncias, depois de verificados administrativamente, serão os limites da nova província (MONITOR SUL-MINEIRO, 13/07/1873).
Mais uma vez o separatismo sulmineiro foi derrotado pelos interesses do governo.
Em 1862, o deputado Dr. Evaristo Ferreira da Veiga apresentou, sem êxito, Projeto de Lei que dividia Minas Gerais em duas partes e criava uma nova província com a denominação de Minas do Sul. Suas disposições eram as seguintes:
Art. 1º Fica elevado à categoria de província, com a denominação de província de Minas do Sul, o território da província de Minas Gerais, compreendido entre as do Rio de Janeiro, São Paulo e Goiás, tendo por limites o rio Turvo até sua confluência no rio Grande; este abaixo até as contravertentes do Rio São Francisco, a alcançar a cordilheira que divide as águas do mesmo rio São Francisco das do rio Paranaíba; e este abaixo desde sua nascente na mesma cordilheira até os limites da província de Goiás.
Art. 2º A nova província terá por capital a cidade da Campanha da Princesa, enquanto a assembléia respectiva não decretar o contrário.
Art. 3º A província de Minas do Sul dará três senadores e dez deputados à assembléia geral; sua assembléia provincial constará de 28 membros. Dos 10 atuais senadores da província de Minas Gerais serão designados por parte, em sessão do senado, depois de sancionada esta lei, os três que serão considerados da província de Minas do Sul.
Art. 4º Os atuais 3º e 4º distritos eleitorais da província de Minas Gerais darão cada uma 2, em vez de 3 deputados e o 7º continuará a dar 2; e a mesma província dará sete senadores e sua assembléia provincial terá 35 membros.
Art. 5º A Província de Minas do Sul fica dividida em dois distritos eleitorais: o 1º compreendendo os municípios da Aiuruoca, Baependi, Cristina, Itajubá, Jaguari, Pouso Alegre, Caldas, Alfenas, Campanha, Três Pontas e Lavras; e o 2º as de Passos, Jacuí, Uberaba, Desemboque, Araxá,  Campo Grande, Prata, Bagagem e Patrocínio; continuando a ser apuradora do 1º distrito a câmara municipal da Campanha da Princeza e será do 2º a do Araxá.
Art. 6º O governo fica autorizado para criar na província de Minas do Sul administração dos correios, tesouraria de fazenda, que será encarregada também da arrecadação e administração das atuais rendas provinciais enquanto a assembléia respectiva não decretar o contrário, e as secretarias de polícia e da presidência, subsistindo a organização desta enquanto a mesma assembléia não alterá-la (MONITOR SUL-MINEIRO, 1873).
Outro Projeto de Lei, apresentado pelo deputado Américo Lobo, a 11 de Julho de 1868, continha as seguintes disposições:
Art. 1º Ficam elevados à categoria de província, com a denominação de província do Sapucaí, o município de Lavras e os que compõem as comarcas de Baependi, Jaguari, Sapucaí e Rio Grande, da província de Minas Gerais, menos o termo de Pium-í.
Art. 2º A cidade da Campanha da Princesa será a capital da província do Sapucaí, enquanto a respectiva assembléia não deliberar o contrário.
Art. 3º A província do Sapucaí dará 2 senadores e 5 deputados à Assembléia Geral; sua Assembléia Provincial comporá de 28 membros. Dos 10 senadores da província de Minas Gerais serão designados por sorte, em sessão do Senado, depois de sancionada a presente lei, os que serão considerados da província do Sapucaí.
Art. 4º Dará 2 deputados à Assembléia Geral o atual 3º distrito da província de Minas Gerais, cuja Assembléia Provincial constará de 45 membros.
Art. 5º A província do Sapucaí fica dividida em dois distritos eleitorais, dos quais o 2º dará dois deputados à Assembléia Geral e doze à Provincial: o governo designará os respectivos colégios eleitorais e câmaras apuradoras.
Art. 6º O governo fica autorizado para criar na província do Sapucaí a administração dos correios, tesouraria da fazenda, que será também encarregada da administração e arrecadação das atuais rendas provinciais, enquanto a respectiva assembléia não decretar o contrário, e as secretarias da polícia e presidência, subsistindo à organização desta, enquanto a mesma assembléia não altera-la. [...] (MONITOR SUL-MINEIRO, 20/07/1873).
Um último projeto separatista foi apresentado à Câmara dos Deputados pelo Dr. Olímpio Valladão, a 8 de julho de 1884. Seu teor e forma não diferiam dos projetos anteriores, sendo que a circunspeção proposta para a nova província limitava-se apenas às comarcas do Sul de Minas Gerais.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Primeira descrição do município de Paraisópolis (1878)

71º MUNICÍPIO - Vila de São Jose do Paraíso.

A freguesia de São José do Paraíso, conhecida em outro tempo pelo nome de Campo do Lima, foi desmembrada do município de Itajubá e elevada a vila de 1872 a 1873. Pertence à comarca de Itajubá, e dista da Corte 70 léguas e de Ouro Preto 78. Tem um colégio eleitoral composto de 53 eleitores.

(fotografia tirada a partir da extremidade do atual calçadão; à direita, o Mercado Municipal, em primeiro plano, e pouco adiante o prédio da Cadeia e Fórum, onde hoje se localiza a Fonte Luminosa )

Esta vila está colocada em uma formosa localidade, rodeada de verdejantes colinas: todas elas como que se curvam ante aquela sobre cujo extenso platô se ergue risonha e florescente a povoação.


(fotografia tirada a partir de uma das torres da Igreja do Rosário, localizada onde hoje está a praça Centenário / Clube Recreativo)

A vila contém perto de 300 casas, além da cadeia e três igrejas. Tem seis ruas e quatro praças regulares. Há na vila três aulas de instrução primária. Há também ali uma grande fábrica de vinho, licores e outros produtos alcoólicos. O vinho não é perfeito, mas espera-se que com esforços e capricho se tornará excelente.


(fotografia do prédio onde funcionava a cadeia e o fórum da cidade, mais tarde Clube Literário e Recreativo "Bueno de Paiva", demolido para dar lugar à Fonte Luminosa, da praça Coronel José Vieira - disponível no Arquivo Público de Minas Gerais)

A população do município eleva-se a 21.163 almas. A sua lavoura não é má; planta-se muito fumo e já se começa a plantar o café e a cana; produz muito bem a uva e toda casta de cereais. Exporta muito gado, porcos, toucinho e queijos.

Seu comércio é sofrível e importa muita fazenda, louça, ferragens, molhados, sal e tudo o mais que compõe o nosso gênero de negócio.

O pessoal do município é excelente e composto de homens ricos, civilizados e religiosos.

O número de escravos matriculados na coletoria do município de Paraíso foi de 4.164, e o fundo de emancipação que lhe foi distribuído é de 8:292$789.

O número de ingênuos nascidos em três freguesias do município até o fim de 1876 foi de 371, dos quais faleceram 102.

O município divide por um lado com o de Itajubá; por outro com os de Pouso Alegre e Ouro Fino; e por outro com o de Jaguari.

Compõe-se das freguesias e distritos seguintes:
1ª) freguesia de São José do Paraíso;
2ª) freguesia de Capivari;
3ª) freguesia de São João Batista das Cachoeiras;
4ª) distrito de Santana do Sapucaí-Mirim;
5ª) distrito de Nossa Senhora da Conceição dos Ouros.

(“Tratado de geografia descritiva especial da província de Minas Gerais” / José Joaquim da Silva / 1878)

Os Primeiros Anos (1826 - 1850)

O local outrora conhecido como Campo do Lima ganhou, durante esse segundo quartel do século XIX, outras denominações: o vento que aqui sempre soprou batizou-o inicialmente de São José da Ventania; em 1831, graças às saúvas que proliferavam por essas terras, foi chamada de São José das Formigas.

Administrativamente submissa à Vila de Pouso Alegre, respondia à Diocese de São Paulo nas questões religiosas, o que evidenciava a disputa, ainda mal resolvida, de divisas entre as Províncias de Minas Gerais e São Paulo.

No pequeno povoado, de ruas de terra e casas de taipa, iniciava-se o comércio com outras localidades, graças à abertura das estradas que ligavam as duas províncias.

O Guarda Mor Carneiro exercia o poder político, e a cada ano novos habitantes chegavam. Estabelecimentos comerciais, fazendas, escravos, animais de criação, pequenas casas e extensões de terras cultivadas compunham a paisagem, como acontecia em outros lugares do Brasil em seus primeiros anos de Império independente.

(Detalhe da capa provisória do livro "Paraisópolis de Ontem e Hoje", de João Lopes de Paiva, que acabou sendo substituída pela capa com a imagem da Pensão Machado)

Alvará da Criação da Capela de São José das Formigas

Em 22 de Outubro de 1827, Dom Pedro I concede o Alvará para a construção da capela por solicitação dos moradores do Sapucaí Mirim, nome da região onde estava assente o Campo do Lima, território da Freguesia de Pouso Alegre, sendo presidente da Província de Minas Gerais o Dr. João José Lopes Mendes Ribeiro.

O decreto foi referendado pelo Ministro do Império, Visconde de Caravelas, expedindo o ato abaixo transcrito:

“FAÇO saber que, requerendo-me os moradores do Sapucaí Mirim e irmãos devotos de São José, colocado na capela do mesmo nome, ereta na Freguesia de São José, colocado na capela do mesmo nome, ereta na Freguesia de Pouso Alegre, bispado de São Paulo, a graça de lhes aprovar a Ereção da dita capela. O que, visto a resposta do Procurador Geral das Ordens, hei por bem aprovar e confirmar a ereção da mencionada capela, revalidando com esta mesma aprovação e validade com que a mesma se acha ereta, ficando salvos os direitos paroquiais e os da fábrica da Igreja Matriz e inibido o uso de sepulturas dentro do templo, mandando aos procuradores das Capelas respectivas e demais pessoas a quem seu consentimento pertencer o cumpram a guarde como nela se contém, sendo passada pela Chancelaria da Ordem, e valerá posto que o seu efeito o haja de declarar mais de um ano sem embargo de ordenação em contrário.
O Imperador mandou pelos Ministros do seu Conselho e o Deputado à Mesa da Consciência e Ordem, Cláudio Joaquim Freire o fez.
Rio de Janeiro, 22 de Outubro de 1827, sexto da Independência e do Império.
Pedro I – Imperador”

Após seis meses do decreto do Imperador Dom Pedro 1, em 17 de maio de 1828, ante o Alvará do Imperador, o Bispo de São Paulo, Dom Manuel, baixou o Cumpra-se e foi oficialmente ereta a Capela de São José das Formigas, registrando-se o mesmo Alvará em 13 de Janeiro de 1829, no livro do Tombo da Freguesia de Pouso Alegre pelo então vigário Cônego João Dias de Quadros Aranha, que se tornou o primeiro capelão da neo capela, inaugurando-a.

A igrejinha de São José das Formigas, tempos mais tarde, se tomou de importância, porque seu primeiro capelão foi eleito Senador do Império, e em 1845 tomando parte na Assembléia que outorgou a maioridade a Dom Pedro II.

(Paraisópolis de Ontem e Hoje, João Lopes de Paiva)

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

O Fundador

Francisco Vieira Carneiro e Maria Joaquina da Silva

Francisco Vieira Carneiro nasceu por volta de 1768, em Pouso Alto. Era filho do capitão Antonio Vieira Carneiro e Inácia Maria da Silva. Casou-se com Maria Joaquina da Silva, filha de Joaquim Fernandes de Freitas e Maria Leme da Silva, em 01/07/1797, em Resende.

No verbete sobre Paraisópolis, Waldemar Barbosa, em seu "Dicionário Histórico-Geográfico de Minas Gerais", cita o guarda-mor Francisco Vieira Carneiro:

"PARAISÓPOLIS - José Alves de Lima e sua família foram os primeiros moradores do local que, durante algum tempo, foi conhecido por 'Campo do Lima'. Foi o mesmo José Alves de Lima que, por volta de 1826, doou o patrimônio para a futura capela de São José. O verdadeiro fundador da povoação, entretanto, foi o guarda-mor Francisco Vieira Carneiro, a cujos esforços se deve a construção da capela, logo após a doação do patrimônio. Na tarefa da construção da capela, foi ele auxiliado por José Bernardes Rangel, João Antônio Pereira, Bibiano Teixeira Pinto, Zacarias Pereira Lima, Francisco José Uchoa, Manuel Garcia Guedes e Carlos Joaquim Pereira Guerra. Francisco Vieira Carneiro devia ser homem de influência, pois, logo após a construção da capela, dedicada a S. José, D. Pedro I assinava o alvará de 22 de outubro de 1827, aprovando e confirmando a ere-ção da capela; o referido alvará acha-se registrado no Livro I de Tombo da paróquia de Pouso Alegre".

Além do filho Francisco Vieira da Silva, também são conhecidas, ao certo, duas filhas do casal:
i) Josefa Maria da Silva, casada com seu primo Francisco Fernandes da Silva, filho de João Fernandes da Silva e Francisca Maria de Siqueira.
ii) Mariana Teresa de Jesus, casada com Joaquim Gomes dos Santos, filho de José Gomes dos Santos e Maria Joaquina.

Há alguns outros prováveis filhos, mas sem confirmação documental.

O guarda-mor Francisco Vieira Carneiro foi um dos fundadores de Paraisópolis-MG, possuindo terras na região de Cristina a Paraisópolis (MG). Estava vivo por volta de 1839, mas faleceu antes de 1854.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Os Bandeirantes

Ao travarem os primeiros contatos com os indígenas do litoral brasileiro, os portugueses tiveram a cobiça despertada por “pedras brilhantes e amarelas” encontradas com os nativos.

 (Travessia do Rio Paraíba)
 
Sabedores do valor da riqueza mineral que poderia estar escondida atrás das verdejantes serras, assim que se estabeleciam, os colonizadores tratavam de organizar expedições de reconhecimento do território e de exploração. Era a corrida do ouro...
 
A Corte Portuguesa tentava intimidar os exploradores não-oficiais, para que não perdesse o controle e o direito sobre as riquezas a serem descobertas. Mas histórias contadas por nativos capturados e por corajosos exploradores solitários, sobre o amarelo faiscante do leito dos rios e das serras recobertas de preciosidades, foram mais fortes do que a Coroa.
 
Assim nasceram as “Bandeiras”, incursões ao interior inexplorado, em geral organizadas pelos paulistas sediados na Vila de São Paulo de Piratininga, ou nas nascentes vilas do Vale do Paraíba.
 (Batalha entre bandeirantes e índios)
 
Começava o tempo dos heróis e vilões: eram os “Plantadores de Cidades” desbravando e conquistando o interior do Brasil, à custa do massacre e escravização dos nativos.

(Terras da Serra da Mantiqueira)

domingo, 6 de junho de 2010

Período Colonial

Desde o descobrimento do Brasil, a região do Sul de Minas passou por várias denominações e esteve subordinado à diferentes centros de poder: iniciou pertencendo à Capitania de São Vicente, que deu origem à Capitania do Rio de Janeiro. À essa época, aqui eram os “Sertões dos Cataguases”, local inóspito e temido pelos poucos viajantes que se aventuravam nos rincões profundos da terra recém-descoberta.


Desde o século XVI, expedições de bandeirantes desbravaram o território das Minas, descobrindo ouro e outras riquezas. No início do século XVIII, para ter mais controle sobre o ouro que estava sendo descoberto na região das Minas dos Cataguases, e foi criada a Capitania de São Paulo e Minas do Ouro, desmembrada da Capitania do Rio de Janeiro.

Mapa das Capitanias do Brasil em 1707

Após a revolta de Vila Rica (1720), a Capitania de São Paulo e Minas do Ouro foi desmembrada, originando a Capitania de São Paulo e a Capitania de Minas Gerais, com sede em Vila Rica, atual Ouro Preto.

Mapa das Capitanias do Brasil, em 1789


As Minas eram gerais

Minas Gerais era o Sertão dos Cataguases, um sertão cobiçado, pesquisado e mapeado pelas várias bandeiras que variam essa região vasculhando suas serras, navegando seus rios, revolvendo suas terras em busca das suas incalculáveis riquezas. Desbravada e demarcada pelas bandeiras que buscavam ouro e muitas outras que vinham para cá para guerrear e escravizar índios, sempre voltando para a sua origem, a região central de Minas permanecia inexplorada. A essa época, Minas passou de o Sertão dos Cataguases para Sertão das Minas dos Cataguases, Sertão das Minas do Ouro que chamam Gerais e, finalmente, Minas do Ouro.


Da Capitania de São Vicente à Capitania de Minas Gerais

Poucos anos após ser criada, em 22 de janeiro de 1532 por Martim Afonso de Sousa, a Vila de São Vicente tornou-se capital da Capital e mesmo nome. Esse território estendia-se do litoral sul do que hoje é o Estado de São Paulo até o sul do Rio de Janeiro. Mais tarde, a Capitania de São Vicente foi dividida em duas e a parte ao norte se tornou a Capitania do Rio de Janeiro, que englobava territórios de São Paulo, Minas Gerais, Góias, Mato Grosso, Paraná e Santa Catarina.

Em 3 de novembro de 1709, como consequência da Guerra dos Emboabas (1707-1709), que demonstrara a fragilidade do controle da Coroa Portuguesa sobre a região das recém-descobertas minas de ouro (visto que o governador da capitania de São Vicente residia na capitania do Rio de Janeiro - esta separada daquela em 1567), a antiga capitania de São Vicente foi transformada em Capitania de São Paulo e Minas do Ouro, separada da do Rio de Janeiro.


O primeiro governador da nova Capitania, Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho, pacificador do conflito, estabeleceu as primeiras vilas: Vila Rica (atual Ouro Preto) e a Vila de Nossa Senhora de Sabará (atual Sabará). Posteriormente, a região foi dividia em três Comarcas: Ouro Preto (com sede em Vila Rica); Rio das Velhas (com sede em Sabará); e Rio das Mortes (com sede em São João del-Rei).



("Mapa da Capitania de Minas Geraes, com a deviza de suas comarcas", concluído em 1778, trabalho de José Joaquim da Rocha)

(Carta do Termo de Villa Rica, 1766)


(Mapa da Comarca do Sabará / Levantado por Bernardo Jozé da Gama - Na sequência do nome do autor contém a seguinte informação: "Em cumprimento da Régia Provizão do Desembargo do Paço de 25 de Agosto de 1813, seguindo a divizão ultimamente ordenada pelo Alv. de 17 de Maio de 1815. Vão os pontos de latitude segundo observação do Jezuita Padre Capacy". - A margem inferior do mapa encontra-se aparada ocultando parcialmente uma possível autoria, podendo no entanto ler-se "B.R. Baker Lithg. The writing by J. Netherclift". - Contém legenda.)


(Parte do mapa de José Joaquim da Rocha, de 1778, destacando a Comarca do Rio das Mortes, que corresponde ao atual Sul de Minas)


A partir de cerca de 1725 serão descobertos na região diamantes, consolidando a capitania como a principal economia da colônia à época, suplantando a da Região Nordeste do Brasil. Pela ação desbravadora dos bandeirantes a nova capitania passou a contar com um vasto território, que abrangia os sertões de São Paulo, Paraná e Santa Catarina, para o sul, e de Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso para oeste (ver Mapa das Capitanias, de 1707).

Como consequência da Revolta de Vila Rica (1720), além do adiamento da instalação da Casa de Fundição, materializou-se a autonomia administrativa das Minas, uma vez que, em 12 de setembro desse ano, D. João V desmembrou-a, instituindo a Capitania das Minas Gerais e a Capitania de São Paulo.


(Planta Geral da Capitania de Minas Gerais)


(Mapa da Capitania de São Paulo - legenda no mapa)

Na primeira foi então criada mais uma Comarca: Serro do Frio (com sede em Vila do Príncipe, atual Serro). O primeiro governador da nova capitania das Minas Gerais, D. Lourenço de Almeida tomou posse a 18 de agosto de 1721 na vila do Carmo. Uma de suas primeiras providências foi a instalação da sede do governo em Vila Rica.



(Mapa da Comarca do Serro do Frio, José Joaquim da Rocha)


Posteriormente, em 1748, no contexto da demarcação dos limites entre a América Portuguesa e a Espanhola, as regiões de Mato Grosso e Goiás foram desmembradas da de São Paulo, sendo criadas duas capitanias autônomas: a capitania de Mato Grosso, com sede em Vila Bela da Santíssima Trindade e a de Goiás, com capital em Vila Boa de Goiás.


A partir de 1772, a Coroa Portuguesa assumiu integralmente a produção diamantífera nas Minas Gerais, criando uma empresa para tal fim, a Real Extração dos Diamantes.




Período Pré Colonial

Primeiras evidências de ocupação humana na região do Sul de Minas Gerais


Sem comprovação ainda, estima-se que as pinturas rupestres encontradas em Extrema (Pedra do Índio) e Tocos do Moji, datam de mais de 2500 anos atrás. As escavações arqueológicas em Conceição dos Ouros revelaram materiais de cerâmica (utensílios, urnas funerárias, etc.) datando em torno de 700 anos atrás.


(Pintura rupestre encontrada na cidade de Tocos do Moji - Sul de Minas)

(Pintura rupestre encontrada na Pedra do Índio - Extrema, sul de Minas)

(Utensílio de barro de origem indígena encontrado em sítio arqueológico em Conceição dos Ouros, sul de Minas)

(Urna funerária de barro de origem indígena encontrado em sítio arqueológico em Conceição dos Ouros, sul de Minas)

"Os homens da pré-história mineira não moravam em cavernas, apenas aproveitavam casualmente as suas partes abrigadas, porém iluminadas, para se proteger das chuvas ou do sol quente. Em zonas mais frias, o sul de Minas e o Alto São Francisco (Pains e Arcos), faziam casas subterrâneas. Escavavam o solo a três metros de profundidade, abrindo valas de até 20 metros de diâmetro, e recobriam o local com um teto" (Revista Minas Faz Ciência Nº 11 - jun a ago de 2002).


"Essas aldeias de casas subterrâneas indicam um novo modo de vida introduzido pelos grupos de língua Jê, pois se encontram casas isoladas ou agrupadas em conjuntos, subterrâneas e semi-subterrâneas, elípticas, desde o sul de Minas Gerais até o Rio Grande do Sul" (Etnoconhecimento e saúde dos povos indígenas do RS).

Embora ainda sem estudos detalhados, acredita-se que a população indígena que habitava essa região eram denominados “Cataguases” pelos bandeirantes paulistas (que usavam genericamente esse termo para designar qualquer grupo não tupi que habitasse florestas – o termo significa “aquele que vive no mato”, sendo uma derivação de caá – “campo, mata ou árvore”, – “duro ou bruto”, e guá – “vale”).

Outros estudos indicam que os grupos aqui existentes seriam os Coroados (Kaiagang), Carapós e Puris (Os Sertões Proibidos da Mantiqueira: desbravamento, ocupação da terra e as observações do governador Dom Rodrigo José de Meneses). Em referências ao bandeirante Fernão Dias Pais, citam-se índios Mapaxos. Já o bandeirante Matias Cardoso de Almeida, capitão-mor e adjunto de Fernão Dias Pais, é citado como tendo expulsado os “terríveis índios” lopos da região de Atibaia e Sapucaí (?).



Índios Coroados (Coroatos e Corotos) - Litogravura de Rugendas.


Índios Puris - Litogravura de Rugendas.